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Daily Routine by Cristina Ferreira

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Daily Routine by Cristina Ferreira

29
Nov17

A morte...


Cristina Ferreira

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Amado ou odiado, alvo de admiração ou de inveja, a verdade é que afinal ele era como todos nós... não era imortal... 

Estranhamente foi esta a minha reação ao ler há momentos a notícia sobre a morte de Belmiro de Azevedo... Primeiro pensei: "Como é possível?"... Abri a notícia... "Ah, afinal ele já tinha 79 anos... Já? Eu tinha ideia que ele tinha uns 60... Bom, realmente 60 foi mais ou menos quando o meu filho mais velho nasceu... Pois, já lá vão 14, 15 anos... Quando li aquele artigo no Expresso, que adorei, sobre a vida dele... Talvez na revista... Sim foi na revista..."  E hoje ele morreu. Belmiro de Azevedo morreu. Belmiro de Azevedo também morreu...

 

A morte apanha-nos a todos! Recordo quando era adolescente os funerais na aldeia... Numa pequena aldeia do interior todas as perdas eram sentidas. No entanto, o que mais, ainda hoje, me comove é a forma como foram evoluindo os comentários da geração dos meus pais... Numa geração com 30 anos de idade diziam: "Pois... Coitado já era velho, já tinha 60 anos..." 40 anos depois, essa mesma geração está nos 70 e se alguém morre com 80 anos dizem: "Oh! Coitado ainda era tão novo!"

 

Recordo o meu Avô... Eu tinha 28 anos, ele já tinha 83. "Morreu em paz"... Recordo o medo que eu tive de ver a sua expressão... Hesitei até ao último minuto pois não conseguia arranjar a coragem, antes de o descerem para sempre, para olhar e o ver num caixão... Dizem que devemos ficar com a imagem que temos da pessoa em vida, mas eu não consegui... Quis despedir-me e a verdade é que ver o seu sorriso tranquilizou-me. Ele tinha a aparência descansada de quem morreu em paz, a expressão tranquila de quem já tinha cumprido o seu papel aqui e, terminada a sua passagem entre nós, podia partir em paz.

 

Recordo a minha sogra que nos deixou cedo demais... Recordo o sofrimento do meu marido pois ela só tinha 64 anos. Recordo o quão difícil foi explicar aos meus filhos, na época com 8 e 10 anos, que ela tinha partido e jamais iria voltar... Recordo as lágrimas, a revolta, a raiva...

 

Um amigo, que fez há pouco 50 anos, comentava comigo no outro dia, que umas horas antes, estava ele numa sala rodeado por mais de uma dezena de pessoas, de diferentes faixas etárias, quando de súbito simplesmente parou... Olhou à sua volta e sentiu que um dia todos iriam desaparecer... Não sabia como, quando, onde... Apenas a certeza de que todos iriam morrer... 

 

A morte não é o personagem vestido de preto com a foice e o livro do destino na mão. Às vezes, a morte é o ciclo da vida e é mais fácil de entender, explicar e aceitar. Outras vezes é a maior sensação de injustiça, amaldiçoada e repudiada quando apanha uma criança, um jovem, alguém... A morte é apenas a certeza de que ninguém cá vai ficar. A morte é apenas a morte. 

 

Chegamos, ficamos por uns tempos, cumprimos a nossa parte, fazemos o que conseguimos fazer... Há o Belmiro de Azevedo que não será esquecido, mas também há o Manel, também há a Maria... E todos nós que simplesmente partiremos um dia ...

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