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Daily Routine by Cristina Ferreira

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Daily Routine by Cristina Ferreira

15
Fev18

Rescaldo de S. Valentim...


Cristina Ferreira

S. Valentim

 

 

"Hoje quero apenas dizer-te que gosto de ti...

Gosto de ti porque gosto... Gosto de ti porque contigo eu posso ser eu... Gosto de ti porque contigo eu não tenho obrigação de fingir... Gosto de ti porque contigo eu não tenho razão para me esconder ou disfarçar... 

 

Gosto de ti porque trazes à tona o que há de melhor em mim... Gosto de ti porque me dás força, porque me dás garra, porque me apoias e estás para mim... Gosto de ti porque estás aqui e ali e acolá e onde quer que eu de ti precisar! 

 

Gosto de ti porque posso falar-te do meu dia ou simplesmente, ao teu lado, em silêncio ficar... Gosto de ti porque me fazes sentir simplesmente incomparável e incomparavelmente  especial...  Gosto de ti porque me fazes sentir que eu sou parte de ti e tu és parte de mim... Gosto de ti porque eu sei que eu nada seria sem ti...

 

Gosto de ti... simplesmente porque gosto de ti...  "


Ontem foi Dia de S. Valentim, mas estas linhas não foram um discurso entusiasticamente proclamado por um príncipe encantado que chegou no seu cavalo branco... O amor dos contos de fadas não é assim...

Estas linhas raramente são as confissões carinhosas de um marido a quem por ventura se dedicam os melhores anos... O amor e o companheirismo são coisas raras e difíceis de naturalmente alcançar...

Estas linhas poderiam ter sido proferidas pelos lábios de um namorado galante... Mas ramos de rosas vermelhas ou pulseiras prateadas "atulhadas de pérolas inundadas de significado" oferecidas em deslumbrantes jantares de gala são normalmente acompanhadas de palavras fúteis e carentes de significado...

Há palavras que quando são verdadeiramente sentidas não carecem de ser exprimidas... Há gestos que dizem mais do que mil palavras... Há palavras que se leem num olhar... Há palavras que se ouvem sem sequer serem murmuradas... Há palavras que se conseguem ouvir sem escutar...

 

"Gosto de ti... Mas não preciso de o dizer... Tu sabes, tu sentes, tu consegues lê-lo no meu olhar..."

 

 

  Photo by Jeremy Bishop on Unsplash

09
Fev18

E os sonhos...?


Cristina Ferreira

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Entrei no carro, tirei o casaco, coloquei o cinto. Arranquei e fui arrancada, absorvida pelos meus pensamentos... Na curta viagem, fiquei tão distante que só quando parei me apercebi que já tinha chegado a casa!

 

Tenho sonhos... Quem não os tem? Afinal dizem que o sonho comanda a vida! Há sonhos que são fáceis de alcançar, há sonhos que são talvez mais complicados. Nos primeiros, incluo os que dependem só de mim: eu analiso, eu avalio, eu penso, eu repenso... Se concluo: "Isto é um sonho para mim!" Luto por ele... Luto com unhas e dentes, esforço-me sem desistir até o concretizar! Mas se concluo: "Não! Isto não é um sonho para mim..." Encerro o capitulo. Divago e sonho enquanto me der prazer divagar e sonhar e quando concluo que basta, fico por ali!

 

No segundo grupo coloco os sonhos que dependem, não só de mim, mas também da colaboração de outras pessoas... Vou chamar-lhes "os sonhos de equipa". Nos "sonhos de equipa" somos sempre pelo menos 2, mas por vezes somos mais... Eu conheço a minha parte, eu sei o que consigo ou não fazer, o tempo que consigo ou não dedicar... De mim, eu sei sempre o que posso esperar... Normalmente os outros também sabem o que podem ou não esperar de mim... Sou uma pessoa previsível, confiável... Dedicada e sempre disponível! Disponível por vezes demais...

 

Os outros? Os outros são sempre uma incógnita para mim... Tenho dificuldade em confiar... Nunca sei até onde me vão apoiar, nunca sei até onde posso cegamente confiar... Nunca sei quando me vão desiludir, quando me vão abandonar... Talvez esteja a exagerar... Ou talvez eu seja demasiado perfecionista e exigente...

 

Mas sou assim e não sei ser de outra forma: gosto das coisas bem feitas, bem organizadas, bem determinadas! Não gosto de incertezas, não gosto de "Amanhã talvez consiga..." Não gosto de compromissos que falham... Não gosto quando não se dá importância a um sonho que é importante...

 

Ou será que é importante apenas para mim? Na dúvida, na incerteza, não gosto de "sonhos de equipa"... Não gosto de abstração, ausência ou palavras vãs... Não gosto de fracasso no final de projetos cujos cacos normalmente sobram para mim!

 

Todos os meus sonhos envolvem histórias boas e histórias más... Todos os meus sonhos envolvem pedaços que me deixam feliz e pedaços que, na incerteza, me fazem sufocar e com os quais não sei lidar... Vale a pena eu manter um sonho assim ou é mais simples desistir? Fugir, virar costas, virar a página, esquecer de vez... Desistir! Sim, desistir... Desistir só dói uma vez... Sonhar magoa e volta a magoar... Desilude e volta a desiludir!

 

Aprendi nas sessões de meditação que é importante aprender a aceitar as coisas como elas são. Aceito que tenho um sonho? Aceito que não sei lidar com as personalidades do resto da equipa? Aceito que me angustiam e me sufocam? Aceito que me aterrorizam mas continuo para ver até onde isto me leva? Ou aceito que o melhor é desistir e simplesmente fugir?

 

Por vezes penso que o que nos faz sentir vivos são os sonhos e as emoções que eles nos proporcionam... Afinal o que seria uma vida sem emoções? Vida vazia não seria vida, não valeria a pena ser vivida! Por vezes penso que a minha vida deveria ser uma "linha": sem sonhos, sem expetativas mas também sem desilusões! Uma bela linha reta sem principio nem fim, sem alterações, sem interrupções... Apenas e só uma linha sem oscilações! Uma reta, apenas e só uma reta... 

 

Desliguei o motor. O silêncio abrupto e repentino desligou o fluxo dos meus pensamentos... Abri a porta e sai do carro. Respirei fundo e ouvi o chilrear dos passarinhos... Sorri: estava à porta de casa...

01
Fev18

A procrastinação!


Cristina Ferreira

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Procrastinação: ato ou efeito de procrastinaradiamentodelonga

in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa

 

 

Sonhar acordado em vez de trabalhar ou estudar? Divagar, dar prioridade a tarefas ou actividades não prioritárias? Adiar a realização daquela tarefa ou o estudo daquela matéria seca demais... até não poder mais adiar porque o tempo urge e o adiável converteu-se em obrigatório? No meu tempo chamavam-lhe preguiça, desleixe, irresponsabilidade, falta de produtividade... Palavras e expressões provavelmente demasiado pejorativas, grosseiras e indelicadas foram hoje substituídas pela tão em voga palavra procrastinação!

 

Reconhecida como moda, é quase um orgulho saber procrastinar! Somam-se os artigos sobre dicas para combater a procrastinação: desde aprendermos a aceitar a nossa aptidão inata para a procrastinação e não nos repreendermos injustamente por ela, passando por elaborar listas, dividir tarefas em blocos de tempo, aprender a começar pelas tarefas mais difíceis... até ao eliminar das distrações no ambiente que nos rodeia, realçando inclusivé a possibilidade de instalação de Apps concebidas para bloquear Apps que nos possam eventualmente distrair no computador, tablet ou telemóvel! Vale tudo no que toca à tão famosa e popular procrastinação! Tão bom deixar para amanhã o que podemos fazer hoje! 

 

Hoje ao almoço também nós falámos de procrastinação começando com o nosso já tão familiar diálogo do: "Então filho, correu bem o teste?" versus "Correu mamã mas... talvez pudesse ter corrido melhor... Para  a próxima vou começar a estudar mais cedo..." O dilema dele: criar uma rotina de estudo diária! O meu dilema: como é que uma mãe que também procrastina ensina um filho a não procrastinar?!

 

Já racionalizámos falando mil e uma vezes dos prós e dos contras, já dei sermões de mãe até não já me conseguir ouvir mais, já alterei rotinas de jantar de forma a podermos libertar-nos mais cedo para estudar um pouco a seguir ao jantar... "Está melhor mamã! Desta vez já comecei uns dias antes... Estou a melhorar!

 

Na ultima reunião da escola, a diretora de turma, professora mais velha e experiente, disse uma frase que me ficou no ouvido: "Eles chegam ao 10º ano muito imaturos e vão melhorando... No 11º e 12º a maioria deles já tem rotina de estudo criada e já consegue subir facilmente as notas... O problema é que as notas mais baixas do 10º ano os perseguem e arruinam a média quando chega o momento de concorrerem para a Universidade!"

 

É verdade que vejo no meu menino grande uma evolução e uma maior maturidade... Ele ainda não sabe o que vai querer seguir mais tarde... Com 15 anos como pode saber? Mas e se a diretora de turma tiver razão? E se a sua maturidade não evoluir suficientemente rápido e lhe arruinar mais tarde a média? E se ele descobrir uma súbita vocação para algo que exija uma média mais alta e for tarde demais? 

 

Hoje ao almoço decidi mudar de estratégia:  deixar de lado a procura das hipotéticas técnicas mágicas de criação de rotinas de estudo e aliviar a pressão! Decidi mostrar-lhe com humor o meu próprio cúmulo da procrastinação: o meu cesto da roupa!

 

Considerando-a uma das tarefas domésticas mais inuteis e açambarcadoras de tempo que algum dia inventaram, decidi deixar de passar a ferro há alguns anos atrás! Só compro roupa prática que não exija cuidados desnecessários para além dos inevitáveis lavar, secar, dobrar e guardar! Tenho um segredo: a máquina de secar. Quando o tempo está humido, seco a roupa diretamente nela, mas mesmo quando a seco no estendal, faço-a passar por lá uns minutos para a aquecer! A seguir quentinha é só esticar e dobrar! Até aqui tudo bem: simplificar e despachar a coisa!

 

Faço tudo metodica e rapidamente até ao colocar da roupa no cesto... Depois no momento de passar do cesto para os roupeiros: procrastino! Nunca consegui perceber porquê, mas a verdade é que pouso o cesto na sala e ele fica ali, por vezes só horas a fio, por vezes até ao dia seguinte... O meu menino grande riu-se e disse que até já tinha reparado, mas nunca associara esta parvoíce a procrastinação! 

 

É dificil educar. Devemos ser exigientes? Sim! Devemos exigir-lhes a perfeição? Não... Às vezes quando não sei o que fazer para o motivar, dou-lhe os meus maus exemplos na esperança de que ao, de alguma forma comigo se identificar, se sinta motivado... E às vezes, não é que resulta?! Hoje passou quase duas horas da tarde a estudar! Com pausas e intervalos, verdade, mas conseguiu! E já até me desafiou para estudarmos os dois lado a lado depois de jantar: ele fica na Física e Química e eu vou para o meu Português! 

 

 

31
Jan18

Envelhecer... Começa no olhar...


Cristina Ferreira

 

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É verdade que os anos vão passando.... É verdade que está escrito por aí que eu nasci em 1973, é verdade que eu hoje tenho 44 anos, é verdade que eu farei 45 anos em outubro. É verdade que certamente já vivi metade da minha vida... Mas é verdade também que nunca até hoje pensei que me pudesse acontecer a mim... É oficial: estou a envelhecer!

 

Olho para o espelho e não vejo cabelos brancos. É verdade que estão disfarçados pelas camadas e camadas de tinta loira que já uso há tantos e tantos anos que já nem recordo qual a cor natural dissimulada lá por baixo! Sim talvez eles espreitem e teimem em aparecer, mas enquanto os puder disfarçar, disfarçarei! Não pertenço aquele grupo de mulheres apologistas da cor natural cujos cabelos brancos sonham um dia exibir com orgulho... 

 

Olho para o espelho e à volta dos olhos e dos lábios já vejo umas linhas fininhas... Diariamente, de manhã e à noite, já há muitos anos e sem abrir exceção, sigo uma rígida rotina de cuidados faciais: desmaquilhar, anti-rugas e contorno de olhos. A rotina diária complemento-a com esporádicas esfoliações e máscaras... Sim uso e abuso do que estiver ao meu alcance para adiar o aparecimento de novas linhas! E sorrio... Sorrio muito pois dizem que se sorrirmos muito as rugas aparecem nos pontos certos e ao invés de enfear o rosto, continuarão a embelezá-lo!

 

Acreditava naquela expressão que quando começamos a envelhecer começamos a usar: "A idade não importa! O que importa é a mente! A mente não envelhece..." Nunca senti as minhas forças falharem... Cansada fisicamente só mesmo quando exagero no ginásio! Sou saudável, felizmente sempre fui... Nunca estou doente! Na brincadeira até costumo dizer que o Universo sabe que eu não posso ficar doente... Longe da família e com o ex-marido no estrangeiro quem tomaria conta dos meus meninos? 

 

Hoje percebo o quanto era absurdo e até presunçoso da minha parte, mas sempre pensei que enquanto eu recusasse envelhecer não envelheceria! Esta minha mania de ver o copo sempre meio cheio e de querer olhar sempre para o lado bom da vida!

 

Um dia, estranhamente as letras começaram a bailar nas folhas dos meus livros e para as parar e obrigar a ficar sossegadas eu comecei a ligeiramente afastar-me para trás! Inicialmente não percebi... Mas as dores de cabeça que lentamente chegaram depois não deixaram margem para dúvidas!

 

Segundo o médico ligeiramente idoso que me atendeu com um sorridente "Bem vinda ao grupo!" e que me presenteou com um belo discurso sobre a idade e a progressão da diminuição da visão, até aqui tive muita sorte! "Normalmente", explicou ele, "a visão começa a fraquejar aos 40 anos... Parabéns! Já está 4 anos atrasada!" Bem ganhei 4 anos, mas confesso que mesmo assim apanhou-me desprevenida... Eu velha e com óculos por causa da idade? 

 

Fui busca-los hoje e mostrei-os aos meus meninos. O meu bebé grande olhou-me com alguma tristeza mas acariciou-me suavemente a nuca com um: "Até te ficam bem mamã... Ficas só com um ar um bocadinho mais velha!" Já o meu menino grande olhou seriamente para mim e com revolta protestou: "Não te quero ver com óculos! Não quero que sejas velha!"

 

"Calma! É só para ler!" consegui eu consolar... Estranho como consigo sempre buscar forças para os consolar mesmo quando por dentro eu estou cheia de medo... Será este apenas um simples pontinho no meu ainda longínquo e distante inicio de processo de envelhecimento... Viverei ainda saudável por muitos e muitos anos? Ou será o inicio da minha decadência física? Que virá a seguir? Dores musculares? Surdez? Memória? Dentadura?

 

Bom parece que chegou o momento de aceitar com carinho a sorte de ter apenas um pequeno problema de visão que se resolve com uns óculos de pôr e tirar... e de me dedicar a elaborar uma lista das coisas positivas do envelhecimento para o copo, que momentaneamente meio vazio ficou, meio cheio voltar a ficar!

29
Jan18

Pensamentos soltos... ou balanço do fim de semana...


Cristina Ferreira

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Planeara fazer limpezas este fim de semana: daquelas limpezas sérias e profundas com direito a lista! O topo da lista estava encabeçado pelo primordial e inadiável objetivo de me desembaraçar dos vestígios de humidade que lentamente teimam em brotar pelos tetos da casa de banho e da varanda! Há quanto tempo andava eu a adiar? Talvez um mês, talvez mais... Mas como era pouquinho, deixava estar... 

 

Sábado à tarde arregacei decididamente as mangas e comecei por atacar furiosamente a varanda! Só parei quando acabei! Orgulhosa, mas de rastos, aterrei no sofá! O plano era parar apenas por uns breves minutos para descansar e continuar logo em seguida, conforme planeado... Mas o sofá levou ao Zapping...  O Zapping levou ao TV Cine Séries e: "Olha a repetição do Game of Thrones!"

 

Nunca vira os episódios iniciais: começara pela 7ª temporada antecedendo-a de um resumo no Youtube para me situar! "Vou só espreitar, não há risco de me interessar!" pensei eu inocentemente pois ficara desiludida com a não ação da 7ª temporada... E cliquei "VER". Temporada 1 - Episódio 1.

 

O tempo voou! "Afinal a série até é boa!" pensei eu no final do episódio.  "Ainda é cedo, vou ver o segundo..." e uma hora mais tarde: "Já agora o terceiro!" Resultado? O teto da casa de banho ficou por limpar e acabei por devorar a totalidade da primeira temporada: os 5 primeiros episódios no sábado e os 5 últimos no domingo! Os segundos acrescidos do 1º da segunda temporada! 

 

Hoje de manhã, veio o vazio...

 

Cansaço? Afinal acabei por dormir tarde duas noites seguidas para ficar em frente à televisão! Sensação de dever não cumprido? Afinal o objetivo para o fim de semana era limpar os tetos e estudar português e, se ainda limpei uma parte do planeado, no português nem sequer toquei! Sensação de tempo perdido? Ou simplesmente o pico de descida após a euforia e o entusiasmo? 

 

Houve uma época em que eu finalmente percebi que quanto mais alto o meu humor subia, mais baixo a seguir descia... Como um gráfico constantemente oscilante, como um pêndulo que eternamente balança: quanto mais alto sobe mais baixo desce! Por mais feliz que em algum momento eu me sentisse, inevitavelmente e sem razão aparente, a seguir vinha o vazio...

 

Tempestade após a bonança? Impermanência? Como se explica o vazio que às vezes espreita? Será que todos o sentem? Como é possível sentir o vazio após um fim de semana tão tranquilo?

 

Na minha juventude, durante anos e anos a fio, eu pensava que eu era uma pessoa melancólica ou simplesmente demasiado sensível. Justificava-o com o facto de ser filha de emigrantes: a consciência do ir e voltar, do despedir e da saudade constante, haviam-me marcado e moldado para sempre... A noção sempre presente de que, crescendo eu numa aldeia do interior, um dia seria a minha vez também de partir... 

 

Será por isso que eu penso demais, que eu observo demais? Hoje percebo que talvez tenha sido sempre o medo do vazio... O medo da tristeza de eu partir e de eu os deixar, o medo de eles partirem e me deixarem... Eles? Os pais, os filhos, a família, os amigos... Os que fazem parte da minha vida e vão ficando ou ficarão para trás...

 

O pai dos meus filhos também está no estrangeiro. Os meus filhos também vão e voltam enquanto eu fico cá ou o pai fica lá... O pai também vem e vai enquanto eles ficam cá... E se um dia os meus filhos também forem contagiados por esta cruel melancolia?...

 

São só as voltas que a vida dá... São só pensamentos soltos que por mim vagueiam... Confusos? Sem nexo? Apenas difíceis de entender? Talvez... Sei lá... 

20
Jan18

E quando valores mais altos se alevantam...


Cristina Ferreira

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Na vida fazemos escolhas, tomamos decisões, decidimos entre opções... Às vezes certas, às vezes erradas... Às vezes impulsivas, às vezes devidamente ponderadas... Às vezes seguimos o nosso coração, às vezes decidimos com alguma objetividade... Às vezes escolhemos o que é deveras melhor para nós, às vezes optamos simplesmente pelo que é mais fácil de alcançar... Às vezes lutamos com todas as nossas forças, às vezes deslizamos apenas, e sem esforço, na corrente... Quando um dia somos forçados a parar e a observar, corremos o risco de, a custo, nos apercebermos que nos limitámos a descer o rio a flutuar...

 

Aos 40 anos fiquei pela primeira vez desempregada: sem planos, sem ideias, sem saídas... Senti-me a bater no fundo, completamente perdida e à deriva! Limitando-me a flutuar, o rio tinha-me arrastado para águas nas quais nunca dantes imaginara um dia vir a navegar... Olhando para trás, na tentativa vã de apurar o percurso que me levara até ali, questionei as minhas escolhas passadas...

 

Nasci em França e aos 12 anos regressei à aldeia natal dos meus pais. Cresci no interior e quando chegou o momento de entrar na Universidade, candidatei-me ao Instituto Politécnico da Guarda para o mais perto possível deles ficar. Fiz um Bacharelato em Comunicação Social e Relações Públicas e, quando terminei, fui fazer estágio numa empresa na qual comecei em seguida a trabalhar.

 

Fizera as cadeiras todas do curso, mas como comecei a trabalhar, nunca completei nem entreguei o relatório de estágio. Sempre empregada, por conta de outrem e 8 anos por conta própria, ignorei totalmente o peso da formação... Ao ficar desempregada fui forçada a analisar pela primeira vez o peso das minhas escolhas passadas...

 

Foi nessa altura também que fui confrontada com uma das frases mais inesquecíveis que algum dia o meu menino grande me disse. No meio de um aceso debate após um daqueles típicos sermões de mãe para filho sobre "Tens de estudar e ser um bom aluno...", olhou-me seriamente, olhos nos olhos, e perguntou-me: "Mamã, tu era boa aluna, não eras?" Não percebendo a pergunta, eu respondi-lhe o que ele já sabia: "Sim..." Inocentemente e de olhos arregalados, ele então exclamou: "E olha onde acabaste!!" E eu olhei: tinha-me tornado numa uma mãe desempregada, deprimida e desesperada... A empresa falira e pela primeira vez eu não fazia a mínima ideia do que ia fazer a seguir...

 

Desde então, oscilo entre empregos e estou longe de alcançar a estabilidade que aos 20 anos imaginava que iria ter ao chegar aos 50. Fruto da nossa sociedade? Muitos na minha faixa etária se encontram na minha situação? Talvez... Seja como for ao analisar o meu perfil profissional percebi que apesar de me considerar uma pessoa dinâmica, organizada e com experiência, fluente em francês e inglês e com conhecimentos de espanhol, para todos efeitos eu só tenho o 12º ano! 

 

Tenho consciência de que mesmo que consiga novamente entrar para a Universidade e completar nova licenciatura, nos dias que correm, isso pouco ou nada se refletirá no valor do meu ordenado... No entanto sinto como que "valores mais altos se alevantam" e é agora ou nunca! Sinto que esta é a minha ultima oportunidade e que com unhas e dentes tenho de a agarrar!

 

Estamos sempre a tempo de recomeçar, de mudar, de nos reinventarmos... Já tenho 44 anos? Não! Só tenho 44 anos! Quero voltar a ter sonhos e planos e quero lutar por eles! Eu estou, eu sei, na segunda metade da minha vida e o rio continuará a descer a arrastar-me em direção ao mar... Mas ainda não "acabei", ainda me faltam muitos anos para lá chegar... Posso flutuar, posso nadar, posso parar quando me apetecer parar, posso observar as praias e a vegetação, posso aprender coisas novas... 

 

Neste momento, todo o meu tempo livre é dedicado a estudar português para a preparação do Exame Nacional! O que custou foi começar! (texto que escrevi a 5 de Dezembro de 2017). E que maior inspiração para recomeçar do que o grandioso Luís Camões que estou agora a estudar? 

 

 

17
Jan18

Mãe? Egoísmo vs. Orgulho!


Cristina Ferreira

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Sou uma mãe egoísta! Não só por vezes me apetece parar o tempo pois não quero que os meus meninos cresçam, como também não quero que se tornem autónomos e independentes: quero que precisem sempre de mim! Quero ser útil e continuar a deles cuidar! Sim... Vergonhoso, mas é verdade!

 

No que às pequenas tarefas do dia a dia diz respeito, só no verão passado me apercebi que o meu menino grande tem 15 anos! De repente entrou para o 10º ano e para mim foi como um soco no estômago, um cair na realidade! Passei o verão a repetir: 15 anos, 15 anos, 15 anos...

 

Para além das minhas habituais divagações sobre como foi possível o tempo passar tão rápido, dei comigo a lembrar e comparar todas as coisas que eu já fazia com 15 anos: ajudava a cozinhar, ajudava a arrumar a casa, tratava da minha roupa... Ele? Bom confesso que muito pouco ou quase nada... No início deste ano letivo, finalmente percebi que as coisas tinham de mudar...

 

Há pequenas tarefas que ele faz de boa vontade, outras que vai adiando na esperança que eu faça... Aliás aos meus pedidos de ajuda na arrumação, aprendeu a responder com a expressão: "Sabes mamã, às vezes eu não arrumo logo e mesmo assim aparece no armário! Parece que vem um anjo e arruma..." Sim eu sei: é pura chantagem emocional, mas sabe tão bem, não sabe?

 

Seja como for são 15 anos e em abril serão 16... Meu Deus, em Abril 16?? Como é possível, já 16 anos??! Ok! STOP mamã! Para com isso mamã!... 

 

Dizem que eu penso demais... É verdade: sempre tive esse vício! Quando eram pequeninos e, saíamos para passear ou entravamos num local novo, eu avaliava minuciosamente e nos primeiros segundos todas as possibilidades de acidente: os pontos dos quais não se poderiam sequer aproximar, os pontos dos quais poderiam mas só se não largassem a minha mão e os tranquilos pontos estratégicos onde estariam bem seguros!

 

A cada mudança eu pondero e pondero demais! Avalio com cuidado também a repercussão que os disparates que por vezes digo ou faço possa ter neles... Incapaz de impor regras rígidas, sempre optei por educar pelo exemplo. Se o "Se faz favor..." e o "Obrigada!" eram imperativos, também o era o "Desculpa!" quando errava... 

 

Quanto às tarefas: decidi dividir. Por exemplo, o pequeno almoço sirvo eu, o lanche preparam eles... Bom confesso que o lanche nem sempre, mas quem resiste a um: "Mamã por favor, podes pôr tu a manteiga? Pões com tanto amor e carinho que sabe melhor..." Já a roupa alternamos, às vezes dobro eu, às vezes dobram eles... Mas nos quartos não há excepção: aí são sempre eles!

 

Sei que aos poucos vão aprender a fazer tudo sozinhos, mas até lá, será que é muito grave se eu continuar a tratar de algumas coisas e serei perdoada se tudo fizer com muito amor e carinho? 

 

Quando às vezes vou para fazer e já fizeram ou quando algo que eu deixei fora do lugar já encontro arrumado, não posso evitar sorrir... Foram eles! Os meus meninos estão a crescer, estão a aprender a ser independentes e eu fico tão orgulhosa!

 

 

 

15
Jan18

Olhar o mar.. ou amar?...


Cristina Ferreira

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Por mais teorias que se inventem sobre a importância da solidão e o aprender a viver sozinho, continuo a achar que é tudo treta e que na verdade poucos são os que gostam, querem ou conseguem estar sempre sós!

 

Separei-me há 8 anos atrás... Inicialmente, e apesar da inevitável dor causada pela separação, adorei a sensação de liberdade novamente adquirida! Ao meu lado, a absoluta certeza de que só sozinha conseguiria caminhar em direção à tão buscada felicidade! "Todo o espaço e tempo disponíveis na minha vida são agora só para mim e para os meus filhos!" pensara eu, e com convicção, na altura... Doce ilusão!

 

Se os esporádicos fins de semana sem os meus meninos até se foram tornando suportáveis, as férias não! Foi aliás nas primeiras férias em que eles partiram com o pai, e apenas durante uma semana seguida, que eu senti, pela primeira vez, que um dia eles iriam partir para sempre e que para sempre eu iria ficar sozinha!

 

Foi aí que começou a minha luta com o tempo, foi aí que eu percebi que o tempo voaria e foi aí que eu percebi que eles iriam crescer a uma velocidade que eu jamais iria conseguir controlar!

 

"Ainda és jovem! Ainda és bonita! Logo casas outra vez!" repetiam à minha volta... Mas eu só pensava: "E os meus filhos? Como se introduz uma nova pessoa na vida deles sem ocupar espaço? Como posso eu sequer ter tempo, "concentração" ou até "disposição" para um relacionamento sem roubar o tempo deles?..."

 

Eu sei, eu sei! Dirão as mães mais práticas e experientes que eu penso demais! E sim, talvez seja verdade... Mas os meus filhos são os meus filhos e, digam o que disserem, façam o que fizerem, os meus filhos foram e serão sempre a minha prioridade... Pelo menos enquanto eles assim o desejarem... E sim, friso: "assim o desejarem" pois sei que isso está e vai continuar a "mudar"... E, foi e é, esse "mudar" que me permitiu começar a sentir e a usufruir de "alguma liberdade"...

 

Inicialmente, quando eles partiam de férias, eu tentava sair, divertir-me e até conhecer novas pessoas.... Mas quando eles voltavam, eu sentia-me novamente completa e preenchida e, uma pessoa nova que tentasse entrar num mundo que só a nós os três pertencia, tornava-se inevitavelmente, e a curto prazo, um invasor mal recebido!

 

Um dia decidi que bastava: ia seguir à riscas as teorias da solidão e que se lixasse quem me queria voltar a casar! Não adiantava eu tentar enganar-me: os meus filhos eram o centro da minha vida e ninguém ia conseguir entrar para ficar! Confesso que começou por correr bem ... Mas aí conheci o meu M.!

 

O meu M. foi diferente... Não pressionou, não exigiu, não invadiu... Aceitou e admirou a mãe que eu era, a mãe que eu sou e a mãe que eu, espero, continuarei a ser... Mas nesta que é, quiçá, uma fase de transição, em os meus meninos já não me "querem" a tempo inteiro e são os primeiros, ao domingo à tarde, a "despachar-me" com um carinhoso: "Vai mamã! Vai ter com o teu M.!" para assim poderem ficar tranquilos a jogar on-line com os amigos, agora sim, eu vou sem remorsos e sem culpa... Deixo a mamã em casa e levo apenas comigo a Cristina que sente que já tem o direito de voltar...

 

Há uns anos atrás, quando ainda vivíamos, em família, em Viana do Castelo, íamos frequentemente os quatro passear à beira mar. Com o meu, na altura, ainda marido observávamos perguntando-nos, sem conseguir entender, qual seria o prazer de ficar apenas dentro do carro a olhar o mar... Gozávamos dizendo que, aquele ato repetido por ocupantes de inúmeros carros estacionados alinhados, lado a lado, ao longo da praia, devia ser alguma elaborada e enraizada tradição Vianense!

 

Ontem fui com o meu M. à beira mar. Estava vento e ficámos no carro. Lembrei-me de Viana percebendo que, num casamento, ou numa vida em que já não se é feliz, se quer mais e sempre mais: sair, passear, fazer mil e uma coisas para disfarçar e ocultar a infelicidade que vai chegando e se instalando... 

 

Às vezes sinto-me a oscilar entre dois mundos... Num ainda sou só a mamã, noutro volto aos poucos a ser também a Cristina... Uma Cristina que agora até consegue, num domingo à tarde, ficar feliz, quentinha no carro à beira mar, simplesmente a olhar o mar ... e a amar... 

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